Estávamos
já no décimo quarto dia de viagem, convivendo todos os dias o tempo todo juntos, éramos praticamente uma família na Torre de Babel, mas era incrível, pois apesar das
diferenças nas línguas, todos se entendiam muito bem. Nosso dia começou cedo,
saímos de Puerto Natales com destino a Rio Grande, voltaríamos para a
Argentina. A viagem foi longa, mas foi linda demais. Cruzamos o Estreito de
Magalhães a bordo de um Ferry Boat. Quem quis se aventurar no frio que fazia do
lado de fora, deixando os cabelos a la Tina Tuner, teve a oportunidade de ver
os golfinhos nos acompanhando durante o trajeto, era lindo de ver, quando os
cabelos deixavam logicamente. Ingressamos na Argentina pelo Paso de San
Sebastian, e que caminho lindo! Passamos por um lugar que parecia uma fábrica
abandonada, que renderam fotos bem bonitas.



Nosso destino esse dia seria uma
Estância típica da Patagônia, onde se criavam carneiros para produção de lã.
Nem preciso dizer que me encantei pelo lugar e que queria ficar por ali mesmo
pra sempre. Uma casinha, toda florida. As árvores cheias de taturanas, pareciam
que elas nasciam ali mesmo, pena que não tirei nenhuma foto. Fomos ajeitar
nossas coisas e voltar para o jantar. O lugar que dormiríamos tinham vários
quartinhos separados por um compensado de madeira, e dentro de cada quarto uma
beliche. Chuveiro quente num banheiro compartilhado, mas era tudo muito
perfeito. Foi nesse dia que presenciamos a primeira briga de toda a viagem. As
duas alemãs desataram a falar, ninguém sem entender nada a não ser o nosso
guia, o Ivan. Depois descobrimos que a Kirsten não queria dormir junto com a
Wibke, pois ela falava demais. Acreditam? Gente, Wibke é um amor, não conversei
tanto assim com ela durante a viagem, talvez por causa da língua...rs...mas nos
correspondemos até hoje, trocando presentes pelo correio, sinceramente não sei
o porquê disso. Mas, apesar de toda aquela beleza que encontrávamos a cada
curva pelo caminho, teve alguém que conseguiu ficar estressado. Enfim. Depois
de arrumarmos a nossa roupa no quartinho, tiramos algumas fotos por aquele
lugar pitoresco e extremamente fofo. Logo fomos chamados para o nosso jantar e
lembro com água na boca até hoje daquela empanada de cebola que comi por lá.
Pra mim, sem dúvida, foi a melhor comida de toda a viagem. Depois de nos
empanturrarmos como merecíamos, fomos dormir. Dia seguinte e tivemos uma
surpresa muito legal, fomos conhecer todo o processo da criação de ovelhas
deles. Ainda não estava na época da tosquia, por isso não vimos essa parte, mas
o dono da estância nos explicou como tudo funciona, até pastoreou algumas ovelhas,
junto com os cachorrinhos, para gente ver como era. Achei um pouco triste a
situação, cada ovelha dá 3 quilos de lã por ano, e eles ganham 1 dólar por cada
quilo de lã, achei bem pouco por todo o trabalho que eles tem, mas a
experiência valeu muito a pena, e quando partimos de lá foi com o coração
apertado, a família e o lugar deixou muitas saudades.
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| A Estância que ficamos. |
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| Onde acontece a tosa das ovelhas. |
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| As ovelhinhas. |
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| A família que nos recebeu com tanto carinho. |
Seguimos nosso caminho,
faltava tão pouco para aquilo tudo terminar, e cada segundo que se passava meu
coração ia ficando mais apertado. Uma sensação estranha, pois toda viagem que
fazemos sempre tem aquele gostinho de voltar pra casa, mas pra mim estava tudo
tão bom que eu não queria que acabasse nunca. Fomos em direção ao Lago Fagnano,
percorrendo uma estrada que corta a Cordilheira dos Andes, e chegamos num
refúgio de montanha para almoçar. Esse refúgio fica ao lado do Cerro Castor,
onde no inverno tem a temporada de neve, e lá é uma das estações de esqui mais
famosas da região. O lugar era bem legal, ficamos numa Cabana, com
chuveiro quente. O almoço deixou a desejar, mas aproveitar aquele lugar foi
muito legal. O pessoal todo saiu pra fazer uma excursão pela Pinguinera, mas
como eu ia ficar mais um tempo em Ushuaia depois que terminasse nosso roteiro,
e já tinha escolhido fazer esse passeio nesses dias, eu não fui. Ficamos
somente eu, Mateus, Erica e Ivan. Os guias de lá nos levaram para um passeio de
4x4 que foi muito divertido, e nesse tempo tivemos a oportunidade de visitar os
castores que habitam aquela região. Tem muito viu, apesar de termos visto muito
pouco, mas o que vimos foram os estragos que eles fazem na vegetação de lá. Os
guias nos contaram uma história, que confesso nunca fui pesquisar pra saber se
era verdadeira, nem agora que estou escrevendo isso pra vocês. Disseram que uma
vez, na época em que Evita Perón era a primeira dama da Argentina, o governo
recebeu a visita do realeza Canadense, e Evita se apaixonou por um casaco que a
primeira dama do Canadá estava usando. Ela descobriu que era de pele de castor,
e quis então que tivessem castores na Argentina também. Mandaram buscar umas
espécies, e eles começaram a se reproduzir. O que ela não sabia, é que na
Argentina não havia predador natural para os castores, como havia no Canadá, e
agora, ao invés de ser uma espécie a mais na fauna, ele é considerado uma peste
por destruir a vegetação. A sua caça é liberada, e teve épocas que o governo
até pagava um valor por cada castor morto. Que dó!! Mas o passeio foi muito
legal. Voltamos para o refúgio e esperamos os demais chegarem. Depois do
jantar, saímos para fazer um passeio de observação de castores, pois eles tem
hábitos mais noturnos. Nos embrenhamos no meio da vegetação, e conseguimos
enxergar poucos deles, a maioria escondidos sobre as águas. Mas a
diversão nessa hora ficou por conta de Ives, que insistia em sair da trilha
para buscar um ângulo melhor para a busca...rs...logo estávamos fazendo
observação de Ives. Depois de voltarmos para o refúgio, ficamos bebendo cerveja
Austral e jogando truco. Foi uma noite muito boa.
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| A destruição que fazem os castores. |
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| Certeza que aí tem um castor, só não sei onde. |
O dia de
hoje amanheceu com uma tristeza no ar, seria o nosso último dia juntos.
Partimos rumo a Ushuaia, a cidade mais austral do mundo, conhecida também como
Fim do Mundo. Vocês não fazem ideia da vontade que eu tinha de conhecer esse
lugar. Chegar lá foi muito bom. Fomos ao Parque Nacional Terra do Fogo, fazer
uma trilha por lugares incríveis, cheios de pássaros (foi nessa viagem a
primeira vez que vi um Pica Pau, mas tinha visto em El Chalten já), tudo muito
lindo como não poderia deixar de ser. Foi muito legal, que enquanto fazíamos a
trilha encontramos novamente Matteo e Valentina. Ficamos muito felizes com o
reencontro, e marcamos um jantar para despedida mais a noite. Depois da nossa
trilha, aproveitei para carimbar meu passaporte no fim do mundo, lá tem um
carteiro, ele carimba o passaporte e fica lindo. Custou 15 pesos eu acho.
Voltamos para a cidade e fomos fazer o passeio mais enjoado de todos: navegação
pelo canal Beagle. Imagina uma pessoa tonta: sou eu! Passei mal pra caramba na
embarcação, enjoada com o balanço das “tranquilas” águas do canal, mas foi
muito divertido. Avistamos diversos pássaros e lobos marinhos, tivemos a
oportunidade de descer numa pequena ilha, e apreciar mais uma beleza...Voltamos
para Ushuaia e nos hospedamos no nosso hostel, que não me lembro bem o nome
agora. Não era lá grande coisa não, o café da manhã era muito fraco, o banheiro
compartilhado estava meio sujo e o quarto bem bagunçado. A noite fomos jantar
no restaurante Volver, muito bom. Valentina e Matteo foram com a gente, pra
variar comi novamente o King Crab, e experimentei carpaccio de Castor que o Be
tinha pedido. Achei normal..rs. Depois do jantar, eu, Mateus, Be, Kirsten,
Ivan, Erica e Wibke fomos a um Pub para terminar a noite. Foi divertido, mas
estávamos todos muito cansados, e fomos logo embora para o Hostel.
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| No parque Terra do Fogo |
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| O carteiro do fim do mundo, onde carimbei meu passaporte. |
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| Nosso grupo, já com gostinho de despedida. |
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| Os lobos marinhos |
O dia
seguinte foi dia de despedidas, como eu iria ficar mais uns dias, e tinha um
passeio para a Pinguinera, acordei logo cedo com o coração apertado, vontade de
chorar, por ter acabado tudo tão rápido. Me despedi da minha queria Silvia, que
foi parceirinha a viagem inteira, logo no café da manhã. Depois me despedi de
Mateus. Os dois iriam embora de manhã e não os veria mais. Não consegui me despedir de Kirsten, que também iria embora pela manhã. Foi muito
triste...saí para o meu passeio com vontade de chorar, aquele sonho antigo
tinha se realizado tão lindamente, mas estava chegando a hora de acordar.
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